O paradigma BIM

Modelagem da Informação da Construção (Building Information Modelling) ou simplesmente BIM é um novo paradigma processual para o setor da Construção Civil e de Infraestrutura. O BIM pode ser entendido como um processo de modelagem paramétrica tridimensional para obtenção de uma representação digital de características físicas e funcionais de uma construção, seja um edifício ou uma obra de infraestrutura. O modelo obtido abrange a geometria tridimensional, relações espaciais, informações geográficas, quantitativos e características construtivas de uma edificação e seus componentes.

Esse modelo pode ser utilizado em todo o ciclo de vida da edificação: projeto, construção, operação e manutenção e até para demolição e reuso.

A utilização do processo BIM permite a melhoria de qualidade do resultado final com maior confiabilidade nos projetos e processos de planejamento e controle de obras. O modelo BIM resultante leva a um aumento de produtividade com economicidade, posto que  resulta em diminuição de desperdícios e retrabalhos com menores custos e riscos relacionados a edificações e obras de infraestrutura.

Esse novo paradigma tem uma característica primordial, que é, desde o início de um empreendimento, buscar uma prática de trabalho colaborativo de equipes multidisciplinares envolvidas no projeto e construção das obras. Esta primeira característica por si só já representa uma modificação cultural profunda, uma disruptura processual marcante.

Outra característica essencial é a interoperabilidade de dados entre os sistemas de informação utilizados no processo de modelagem e no uso do modelo nas diferentes etapas do ciclo de vida de um empreendimento.  O uso de um formato neutro padronizado para intercâmbio de dados (como o IFC) passa a ser mandatório no sentido de uma franca disseminação de uso do processo BIM e de igualdade de competição no mercado.

O paradigma leva a um ecossistema inovativo, no qual as mudanças de mentalidade e comportamento conduzem ao entendimento do empreendimento como um todo. Com uma variedade de perspectivas e ideias, os diversos aspectos do ciclo de vida e das especialidades envolvidas podem ser tratados pela equipe de forma colaborativa e integrada como parte crucial do processo inovativo.

A Academia brasileira já tem muitas pesquisas realizadas com o tema BIM

Em universidades brasileiras como a UFPR, USP, Unicamp, UFBA, UFC e UFRGS, o tema BIM tem sido estudado em diversos aspectos. Em um período de quinze anos foram publicados por pesquisadores brasileiros algo como quatrocentos trabalhos sobre o tema. Um dos pioneiros nessas pesquisas é o Grupo de Pesquisas em Tecnologia de Informação e Comunicação na Construção (GrupoTIC) da UFPR, em que o tema BIM é abordado antes mesmo de ser usado o acrônimo BIM.Todavia, o mercado precisa inteirar-se dos benefícios já relatados em literatura científica e atestados em iniciativas de diversos países como EUA e Reino Unido. As empresas do setor precisam reagir, capacitando-se e assimilando o novo processo, com auxílio das atuais e potentes ferramentas de tecnologia de informação e comunicação .

Esforços de Governo Federal e Estadual

Pelo lado da União, o interesse pelo tema amplificou-se e em junho de 2017 foi promulgado decreto que instituiu uma Comissão Estratégica de Implantação do BIM (CE-BIM) no Governo Federal. Envolvendo quase uma centena de profissionais de ministérios e órgãos relacionados, a comissão conta também com especialistas convidados. Com seis grupos ad hoc em temas diversos, a CE-BIM deve finalizar um plano de ações estruturantes que será divulgado ainda neste primeiro semestre de 2018. (Informações sobre a CE-BIM em http://www.mdic.gov.br/index.php/competitividade-industrial/ce-bim e https://www.instagram.com/p/BhcVHyCAwGN/?taken-by=bimforumbrasil).

No Estado do Paraná, a Secretaria de Infraestrutura e Logística (SEIL), por meio da Diretoria Geral de Projetos e Obras (DGPO), vem realizando a implantação do BIM com um Plano de Fomento que pode ser apreciado no Portal BIM do Paraná (http://www.bim.pr.gov.br/). Com estas ações espera-se publicar processos de contratação de projeto e obras ainda neste ano de 2018.

Num esforço cooperado, a partir do pioneirismo de Santa Catarina, o Paraná formou junto com os outros dois estados da Região Sul a chamada Rede Gov BIM Sul.

BIM como inovação disruptiva

BIM ainda não tem sido entendido de forma adequada e completa pelo mercado. É visto por muitos como um novo paradigma de inovação incremental, com pequenas modificações de processo e de desenvolvimento do produto da construção.

No sentido da conceituação de Clay Christensen, o fato é que BIM como processo leva a modificações disruptivas em diversos aspectos do atual modelo de negócios do setor da Construção. Muda o processo de projeto e construção. Muda a forma de trabalho tradicional. Muda a forma de contratação de projetos. Muda o foco de atenção para todo o ciclo de vida dos empreendimentos. Para melhor perceber os resultados do novo paradigma, estão em estudo ajustes no arcabouço legal de modo a adequar os modelos de licitação para de projeto,  construção de edifícios e obras de infraestrutura.

Como uma inovação disruptiva, o processo BIM permite a redução de cronograma de obras, um adequado e antecipado foco em problemas e alternativas de solução antes deles se tornarem críticos e, como complemento, melhorias na gestão de pessoal, com maior tempo dos gestores para tratar de suas equipes.

Padrões inovadores de trabalho colaborativo e comunicação entre os envolvidos são esperados desde as primeiras etapas de projeto que resultam em uma integração de estágios e sistemas, de projeto, obra e operação patrocinada por ambientes ricos em mecanismos de visualização tridimensional e interação.

Cabe salientar que com outras tecnologias disruptivas, o BIM pode ainda amplificar os benefícios para a sociedade. Como em outros setores industriais, o uso de veículos aéreos não-tripulados autônomos (drones), robôs de imageamento a laser, de ambientes de realidade virtual e aumentada, de Inteligência Artificial (IA) com sistemas inteligentes e técnicas de Data Science e Big Data deve prosperar em aplicações no setor da Construção. Com atividades francas de pesquisa e desenvolvimento dessas tecnologias, algumas aplicações comerciais já estão em uso.

Essa visão do BIM como um processo inovativo disruptivo já é constatada em muitos casos de melhoria das atuais práticas e ganhos de qualidade e custo do produto final. Além disso, espera-se que, com ajustes nos procedimentos de licitação, acompanhamento e controle dos resultados, seja possível oferecer condições de maior transparência no uso de recursos públicos. Não é à toa que no momento o Governo Federal coloca um decisivo e importante foco na construção de um Plano Estratégico de Implantação de BIM com ações estruturantes para o próximo decênio.