Serviços e economia criativa

No século XX as cidades com alta qualidade de vida e atrativas eram aquelas essencialmente limpas, com bons sistemas de transportes, seguras e verdes (parques e praças) e que ofereciam oportunidades de negócios, trabalho e lazer.

No entanto, nas últimas décadas, mudanças econômicas (globalização), tecnológicas (internet), sociais (migrações e longevidade), entre outras, impactaram profundamente a dinâmica urbana.   

Em diversos casos assistimos inclusive uma profunda decadência, tais como Detroit (Estados Unidos), Manchester (Inglaterra), Bilbao e Barcelona (Espanha), na medida em que também foram atingidas por um processo de desindustrialização devido a transferência da maior parte das suas indústrias para a Ásia.

Um dos resultados deste movimento tem sido a transformação das médias e principalmente grandes cidades em territórios cujo setor produtivo está baseado essencialmente nos segmentos de serviços.

Classificados nas áreas de serviços, os segmentos da Economia Criativa, tais como audiovisual, arquitetura, artes cênicas, design, editorial, expressões culturais, moda, música, publicidade, patrimônio e artes e tecnologia da informação e comunicação são considerados os de mais alto valor agregado e por isso definidos como muito relevantes para as novas estratégias de desenvolvimento.

O Departamento de Cultura, Mídia e Esportes (DCMS) britânico considera Economia Criativa aquela em que “as atividades têm sua origem na criatividade, na perícia e no talento individual e que possuem um potencial para criação de riqueza e empregos através da geração e da exploração de propriedade intelectual”.

Estes segmentos criativos apresentam maior capacidade de gerar empregos, principalmente entre os jovens e, se bem articulados e apoiados, são propulsores de inovação e da ampliação da capacidade produtiva do conjunto da economia. Por isso, diversas políticas urbanas implementadas atualmente, em todo o mundo, visam ampliar a proporção dos serviços de alto valor agregado na matriz produtiva das cidades a fim de torna-las mais competitivas.

As estratégias econômicas urbanas estão focadas principalmente em (a) transformar com mais velocidade os seus talentos criativos em empreendedores de sucesso; (b) atrair para as cidades novos empreendedores, negócios e investimentos inovadores e da Economia Criativa; e (c) fazer crescer os empreendimentos existentes com mais valor agregado.

Cidades criativas

As cidades são consideradas atualmente o habitat por excelência das classes criativas e dos empreendedores inovadores e, por isso, as grandes protagonistas do desenvolvimento econômico e social no século XXI.         

Segundo o espanhol Jordi Pardo,“no início do século XXI, uma Cidade Criativa é um sistema social, cultural e econômico no qual a criação de oportunidades, prosperidade e riqueza está baseada na habilidade de gerar valor com a força de ideias, informação, conhecimento e talento. Ela promove os elementos de um ecossistema sociocultural que é parte do sistema produtivo, no qual os centros de treinamento, informação, pesquisa, bem como as áreas tradicionais da cultura e as atividades econômicas de todos os setores interagem para gerar valor e riqueza e melhorar a coesão social, a qualidade de vida e a atratividade da cidade como um cenário econômico e vital.”

Conforme a definição acima a competitividade das cidades requer atualmente uma série de novos instrumentos que garantam a retenção de talentos, capacitação de jovens empreendedores e pessoas criativas, atração de empresários e de investimentos, diversificação da matriz produtiva, ampliação da diversidade social e fortalecimento de projetos culturais.

A especialista brasileira, Ana Carla F. Reis, autora de uma tese publicada sobre o tema, defende que uma Cidade Criativa se caracteriza por estar em um “permanente processo de inovação, apresentar conexões diversas; e ter na cultura – sua digital – grande fonte de criatividade e diferenciação social, econômica e urbana. A Cidade Criativa conta com quatro requisitos essenciais: diversidade, mudança, aprendizado e adaptação”. Ou seja, as cidades criativas são destacadas pelas inovações urbanas e empresariais, conexões presenciais e virtuais, relevantes bases culturais e ações de longo prazo.  

Para Charles Landry, cultura neste caso deve ser entendida enquanto identidade da cidade, seu patrimônio, seu passado e a imagem que este projeta no seu presente e induz seu futuro. Já segundo John Howkins a colaboraçãourbanaé uma das forças mais poderosas na mudança social contemporânea. A nova economia conta com modelos de negócios colaborativos que requerem ambientes empresariais compartilhados, boa infraestrutura de conectividade e novas formas de financiamento. As cidades criativas são consideradas excelentes ecossistemas para impulsionar a nova economia. A produção na nova economia resulta majoritariamente em produtos e serviços intangíveis, com altos índices na economia informal e renda salarial e rentabilidade médias acima dos demais segmentos da economia.

Clusters criativos

Novas políticas públicas e parcerias público-privadas têm sido implementadas em diversas cidades em todo o mundo visando estimular o surgimento de projetos urbanos que sustentem empreendimentos criativos.

Destacam-se algumas delas: definições apropriadas do zoneamento urbano, preservação do patrimônio histórico, revitalização de antigas áreas e construções degradadas, fortalecimento de centros culturais, grandes espaços para empreendimentos criativos, galerias de arte, bibliotecas modernas e informatizadas, salas de cinema e demais empreendimentos de audiovisual, museus, ampla infraestrutura de conectividade, mobilidade diversificada e eficiente, áreas verdes, entre outras.

As cidades também têm procurado estimular mais rapidamente o desenvolvimento de empreendimentos criativos por meio de Clusters (concentrações ou agrupamentos) os quais, segundo o britânico Simon Evans, “estimulam a inovação, proporcionam maior competitividade e tranquilizam investidores e clientes”.

Os Clusters são ambientes ou ecossistemas implantados em bairros que contam com “polos tecnológicos, centros de conhecimento, instituições sem fins lucrativos, espaços culturais, uso misto (residencial, comercial e lazer) e diversidade cultural”, conforme Ana Carla F. Reis.

O designer argentino Enrique Avogadro, define Cluster Criativo como a reunião de empresas (concorrentes ou não) preferencialmente com atividades inovadoras e/ou criativas que se instalam em um único bairro, em geral, fora do centro. Assim, além de transformar e modernizar a região, o Cluster facilita a cooperação entre essas empresas e melhora a qualidade de vida dos trabalhadores e moradores.

Existem várias definições de Clusters, no entanto, a mais influente continua sendo a do pioneiro americano Michael Porter (1998) que define um Cluster como “uma concentração geográfica das empresas interconectadas, fornecedores especializados, prestadores de serviços, instituições e empresas associadas em indústrias relacionadas”.

Este agrupamento conduz a uma série de vantagens para as empresas e regiões onde se implantam, principalmente no que se refere ao aumento da competitividade e produtividade, ao aparecimento de novas empresas, crescimento e rentabilidade das existentes e acréscimo do emprego qualificado e inovação.

Os negócios criativos ‘gostam’ de se agrupar, porque os seus produtos e serviços ganham com a troca e interação entre os seus atores. Ganham com o aumento da visibilidade de um Cluster comparado ao que poderiam conseguir permanecendo isolados e se beneficiam das ações comuns de divulgação e de troca de conhecimento.

A clusterização dos negócios criativos permite a geração de intercâmbios práticos e criativos com outras empresas e a obtenção de economias de escala (custos de mão-de-obra, abertura de ateliers, espaços de exibição, etc.). É também uma das formas encontradas para reduzir as dificuldades das empresas criativas iniciantes já que possibilitam o maior acesso a informação, redes e apoio técnico, conforme a Fundação Serra Alves (1998).

Exemplos de Clusters Criativos

Descrições resumidas de quatro clusters significativos do Brasil, Espanha e Portugal seguem abaixo. O espanhol ROCA UMBERT foi apresentado no Seminário Internacional de Clusters Criativos realizado em junho de 2013, pela Fecomércio/SP, em São Paulo. Os demais foram visitados por esta autora. 

  • PORTO DIGITAL: Recife/PE – Brasil

O Porto Digital é um parque tecnológico localizado na cidade do Recife com atuação nas áreas de tecnologia da informação e comunicação e economia criativa. Foi fundado em 2000 com os objetivos de reter profissionais qualificados na cidade e revitalizar o bairro do Recife Antigo, uma região histórica que à época estava altamente degradada. Foi viabilizado inicialmente a partir de um aporte de R$ 33 milhões provenientes da privatização da Companhia Energética de Pernambuco. 

Este projeto é considerado um importante cluster mundial de tecnologia e da criatividade em especial devido ao seu modelo inovador de governança público-privada.

Além de indutor dos negócios de base tecnológica, o Porto Digital também é reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico Nacional (IPHAN), por sua atuação na revitalização do patrimônio histórico do Recife Antigo. Desde sua fundação, o Porto Digital conseguiu recuperar mais de 80 mil metros quadrados de prédios históricos.

Atualmente o Porto Digital abriga mais de 300 empresas, institutos de pesquisa e incubadoras totalizando em 2017 um faturamento de R$ 1,7 bilhão e empregando 9 mil pessoas. Em 2013 ampliou sua área de atuação para as empresas da economia criativa, abrangendo as áreas de jogos eletrônicos, audiovisual, música e design.

Os seguintes fundos de investimentos têm atuação destacada no Porto Digital: IKEWAI – Investimentos e Participações, Fundo CRIATEC, Saints Investimentos, Triaxis Capital, FIR Capital, Inseed Investimentos e Tynno Negócios e Participações. Além desses fundos o Porto Digital conta com as seguintes Aceleradoras de Negócios: JUMP Brasil, CESAR Labs, Overdrives e CMTech Labs.

  • ROCA UMBERT: da Fábrica Têxtil à Fábrica das Artes – Granollers/Espanha

A origem da fábrica têxtil remonta a 1871, em Sant Feliu de Codines, sendo Josep Umbert i Ventura (1844-1917) o seu fundador. O crescimento industrial e a rápida consolidação do setor têxtil catalão aumentaram rapidamente a produção da empresa e, em 1904, foi iniciada a fábrica da Roca Umbert, onde foram instalados os primeiros teares.

Em 1936 a empresa foi requisitada pelos trabalhadores e levou o nome de Espartacus. Em janeiro de 1939 sofreu uma grande destruição como resultado de um incêndio provocado, mas lentamente se recuperou e nos anos cinquenta foi construída uma usina térmica, para permitir a sua autonomia no fornecimento de energia. A modernização da indústria é então iniciada e seus tecidos passam a contar com alta qualidade. Em 1971 a fábrica passa pelo primeiro plano de reestruturação, em 1978 pelo segundo, fechando suas portas em 1991, na sequência de greves generalizadas.

Em janeiro de 2003, a Câmara Municipal de Granollers aprovou o Plano de Uso do Projeto Roca Umbert como uma fábrica de artes e em novembro de 2004 o Plano Diretor de Arquitetura foi aprovado. Ambos os documentos têm sido roteiro para reabilitar a ocupação dos 21.000 m2 da Roca Umbert.

Desde a abertura do Centro Tecnológico e Universitário em 2003, Roca Umbert tem sido um projeto em constante evolução. Em 2005 a biblioteca foi inaugurada, em 2006, o centro de cultura, o bar, o espaço para ensaios musicais, etc. Em 2008, a área de artes, em 2009, o centro de audiovisual, em 2010 o centro de criação e difusão musical e o centro polivalente. Além desses foram instaladas as oficinas de produção do festival, feiras, coworking, exposições, etc.

Empresas privadas também foram estabelecidas em Roca Umbert: o Sarandaca Workshop (2005), Arsênico, Área de Criação (2011) e a oficina do artista visual Joan Fontcuberta (2013).

Roca Umbert é um espaço em constante transformação a serviço de processos criativos, formação profissional e estímulo ao empreendedorismo. Neste cluster criativo existem artistas, atores, artesãos, produtores audiovisuais, mídia, designers, arquitetos, jovens empreendedores, empresários, etc.

O compartilhamento de experiências no mesmo espaço estimula o fortalecimento de alianças e conexões entre todos. Uma inovação aberta e colaborativa que faz de Roca Umbert um laboratório que coopera com o tecido econômico e social da cidade de Granollers e impacta positivamente o desenvolvimento local.

  • LX FACTORY: o Soho de Lisboa

No ano de 1846 a Companhia de Fiação e Tecidos Lisbonense, um dos mais importantes complexos fabris de Lisboa, instala-se no bairro de Alcântara. Nos anos subsequentes esta área industrial de 23.000m2 é ocupada pela Companhia Industrial de Portugal e Colônias, tipografia Anuário Comercial de Portugal e Gráfica Mirandela. A partir da segunda metade do século XX, com a diminuição das atividades fabris, o espaço vai se degradando.

Somente em 2005, após décadas de abandono desse bairro, começaram as transformações do bairro por meio da instalação de centenas de empresas de design, de artes e publicidade, lojas, restaurantes e livrarias. A partir de 2008 esta região, batizada de LX FACTORY, transformou-se em uma geradora de riqueza e ótima opção de passeio, gastronomia e consumo.

Lá também existe um espaço de coworking que abriga empresas dos segmentos criativos. Aos domingos tem o LX Rural, uma feira de produtos orgânicos e biológicos disponibilizados diretamente dos produtores.

LX FACTORY vem se transformando em um lugar da moda, que atrai principalmente a juventude local, os profissionais criativos e os turistas. O horário de abertura é extenso e os restaurantes funcionam até tarde. As lojas são focadas em objetos vintagefashion, em novos conceitos.

Uma parte de Lisboa, que durante anos permaneceu escondida, foi devolvida à cidade na forma de uma ilha ocupada por empresas e profissionais criativos. O local também tem sido palco de acontecimentos nas áreas da moda, publicidade, comunicação, multimídia, arte, arquitetura, música, etc., gerando uma dinâmica de atração a um número crescente de visitantes.

LX FACTORY apresenta-se como uma “fábrica de experiências onde é possível intervir, pensar, produzir, apresentar ideias e produtos num lugar que é de todos, para todos.”

  • TIME OUT MARKET LISBOA

Um novo conceito foi criado em 2014 pela equipe da revista Time Out Portugal para abrigar as melhores ideias e negócios criativos de Lisboa: o Time Out Market Lisboa, localizado no tradicional bairro do Cais do Sodré. Os empreendimentos podem ficar no mercado por períodos de uma semana a três anos. O objetivo do projeto é acolher o melhor da cidade debaixo do mesmo teto.

São 24 restaurantes (sendo três chefes com estrelas Michelin), 8 bares, mais de uma dezena de espaços comerciais, coworking, sala de 400m2 para espetáculos, tudo com o melhor de Lisboa: o melhor bife, hambúrguer, sushi, leitão pururuca, etc., acompanhados por alguns dos vendedores de carnes, peixes, frutas, flores e vinhos mais conhecidos (e antigos) da cidade.

Neste amplo espaço de dez mil metros quadrados do mercado há sempre muita coisa acontecendo, muito mais do que comida e bebida. Concertos e eventos no Estúdio Time Out, cursos de culinária na Academia Time Out e todo o movimento do food hall.

O edifício, e mesmo o bairro do Cais do Sodré, antes um ambiente urbano deteriorado, se transformaram num fenômeno de visitantes de dia e de noite. Foram 3,1 milhões de pessoas em 2016 circulando ali. O local onde antigamente se reuniam os melhores comerciantes da cidade, hoje reúne os melhores restaurantes e artistas. Trata-se de um belo projeto de reinvenção urbana e de grande sucesso econômico e cultural.