Estamos vivendo numa sociedade hiperconectada. A Internet alterou muitos de nossos hábitos: o modo como fazemos compras, realizamos operações bancárias, declaramos imposto de renda, ouvimos músicas, assistimos à televisão, ficamos a par das notícias, interagimos com outras pessoas.

De igual maneira, a digitalização e a concepção de novos modelos de negócios deverão alterar o modo como produzimos e distribuímos energia. No setor energético, sistemas descentralizados, armazenamento de energia, Internet das Coisas (IoT, do inglês Internet of Things), blockchain, big data, processamento na nuvem e energias renováveis são temas em ascensão, os quais deverão alterar a relação da população com a energia.

O futuro da energia necessariamente passa pela inovação. A regulação brasileira para o setor de energia prevê um investimento mínimo e compulsório em programas de pesquisa, desenvolvimento e inovação (P&D+i), equivalente a um percentual da receita operacional líquida das empresas.,

Na prática, entretanto, os esforços de P&D+i nas empresas concessionárias de energia sempre foram restritos em termos de melhorias no desempenho econômico dessas empresas. Os investimentos costumam ser de natureza incremental, produzindo impactos localizados, muitas vezes difíceis de ser percebidos. Os motivos para tanto são diversos. Entre outros, recaem sobre a natureza da tecnologia em desenvolvimento, nos processos produtivos das empresas, na dinâmica do mercado, nos fluxos de informações entre os parceiros envolvidos…

Adicionalmente, dado o risco associado ao não cumprimento da legislação de P&D+i (por conta das multas), dada a falta de estímulo para a inovação devido à perda dos ganhos do inovador na revisão tarifária e dadas as restrições competitivas do setor e as limitações para se apropriar de resultados da comercialização de tecnologias, a P&D+i passou a ser encarada como um problema para muitas empresas.

Outro fator relevante é que o setor elétrico é bastante dependente dos fornecedores. Assim, a maior parte das inovações das empresas de geração, transmissão e distribuição de energia no Brasil provém de aquisições de materiais e equipamentos junto a fornecedores. Embora haja empresas nacionais, a maior parte desses fornecedores é composta por grandes multinacionais, denotando o caráter de dependência externa do setor elétrico nacional.

Isso posto, faz-se necessário citar que os gerentes das empresas de energia tendem a priorizar suas atividades operacionais do dia a dia (pelas quais são cobrados por seus superiores hierárquicos), em vez de alocar recursos humanos para o desenvolvimento de P&D+i, o que normalmente não é exigido aos gerentes.

O fato é que a política de estímulo à P&D+i no setor elétrico brasileiro não tem sido suficiente para induzir relações mais adequadas entre os agentes envolvidos na produção de inovações, assim como para garantir bons resultados em termos de padrões mais elevados de desenvolvimento tecnológico. O setor não apresenta condições que tornem a concorrência pela inovação um elemento estratégico para as companhias de energia.

A eletricidade é o novo petróleo – a demanda deve dobrar até 2060. No setor automobilístico, têm-se registrado algumas declarações bastante ousadas de governos como o do Reino Unido, França, Noruega e Índia anunciando o fim do diesel e até mesmo da gasolina até 2040. A verdadeira questão é quando a China – que tem um menor legado na cadeia de suprimentos e deseja reduzir a poluição – decidir tornar-se líder em mobilidade elétrica. Os chineses já declararam que possuem essa ambição, e ela deverá provocar uma reviravolta nessa área.

Um aspecto relevante é a energia não convencional ou renovável, considerada como promissora para a indústria. Neste ano, a energia solar no Chile deve chegar a dois centavos de dólar por megawatt, sendo que em todo o planeta tem havido queda contínua nos preços dessa fonte. A ascensão fenomenal da produção da energia solar, bem como da eólica, continuará ocorrendo a uma taxa sem precedentes e criará novas oportunidades e desafios para os sistemas de energia.

Um desafio a mais e uma oportunidade é como trazer a Internet das Coisas para o mercado de energia. Por exemplo, como se pode aproveitar os dispositivos conectados para que possa haver negociação entre si de forma inteligente, com baixos custos de transação? Será possível substituir os ativos físicos de energia por meios digitais? Isso já foi realizado em outros setores, como no negócio de táxis. Ademais, se o blockchain remove intermediários de alguns processos, pode-se aproveitá-lo para fazer real diferença no setor de energia.

O Brasil precisa ficar atento às novas tecnologias e investigar como elas poderão beneficiar o setor de energia.

Para vencer as dificuldades descritas, enfrentadas hoje pelas empresas de energia nos seus programas de P&D+i, um caminho promissor é a associação das companhias de energia com empresas especializadas em inovação e com universidades e centros de pesquisa. Assim, poderão ser desenvolvidos componentes fundamentais relacionados com a capacidade de absorção e com a apropriação dos resultados da P&D+i, proporcionando numerosos benefícios.

Além disso, nesse arranjo deve-se remunerar o esforço da inovação realizado dentro das companhias de energia (com consequentes ganhos de produtividade e qualidade, os quais, via de regra, representam a maior parte do resultado do investimento em P&D+i).

Precisa-se, também, estimular o mercado nacional para a inovação de materiais, equipamentos e serviços voltados para geração, transmissão e distribuição, a fim de se tornar mais competitivo.

Energia do Futuro: um empreendimento promissor

A Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) em conjunto com a Companhia Paranaense de Energia (Copel) conceberam o empreendimento “Energia do Futuro”. Nele, se estabelecem grandes linhas de P&D+i alinhadas aos objetivos estratégicos da empresa de energia. Em aditamento, o “Energia do Futuro” abre espaço para universidades, centros de pesquisa e empresas especializadas em inovação, por meio de um arranjo de inovação aberta.

Entre os pontos mais importantes desse empreendimento, destaca-se a construção de competências dentro da companhia de energia, capazes não somente de operar, mas de reproduzir e avançar no desenvolvimento dos projetos de P&D+i. O ponto fundamental é construir capacidades internas de absorção de ciência, tecnologia e know-how para, em seguida, dar saltos de desenvolvimento.

A viabilização de um projeto dessa natureza tende a reduzir riscos, permitindo que os benefícios de P&D+i sejam contabilizados pela empresa, pelo setor e pela sociedade.

Certamente, o Brasil ingressará nessa nova era da energia do mundo hiperconectado, e os consumidores serão os maiores beneficiados, mantendo-se o país sempre atento a um equilíbrio entre segurança, acessibilidade e sustentabilidade. Não há como não assegurar o desenvolvimento do setor, se não pela via da inovação, o que deve passar por um conjunto variado de ações. Entre outras, as que abrangem: – o desenvolvimento de estratégias para a vinculação dos esforços de P&D+i das empresas de energia a suas estratégias corporativas; – o envolvimento de unidades organizacionais potencialmente usuárias dos resultados da P&D+i no desenvolvimento dos projetos; – a gestão adequada da estrutura, dos recursos e das competências de P&D+i; – o estabelecimento de relacionamentos e fluxos de conhecimento adequados entre a empresa e seus parceiros.

Esse esforço deve incluir a capacitação contínua do pessoal das companhias de energia para que possam desenvolver inovação e introduzir inovação aberta por meio da qual podem ser construídas parcerias de sucesso entre setor produtivo, universidades, centros de pesquisa, empresas especializadas em inovação, governos e agências de financiamento de P&D+i.

Tal mudança passa também pela ampliação da perspectiva sobre os resultados da P&D+i, hoje orientada à geração de tecnologias, que, na perspectiva, sejam adotadas e comercializadas.

Assim como a Internet modificou muitos de nossos hábitos, da mesma forma ‒ com ela ‒ nossa interação com a energia também será alterada para cenários bastante promissores, mais propícios, bem melhores!