Não tem trabalho de web, vídeo, designer, criação de programação gráfica, logotipos ou propaganda que na hora da apresentação dos orçamentos não seja confrontado com alguém dizendo a fatídica frase: – “eu tenho um sobrinho que faz mais barato.” A área da comunicação está infestada de sobrinhos carregados de boas intenções, que fazem trabalhos baratinhos, nada profissionais, e que na maioria das vezes precisam ser refeitos por quem realmente entende do assunto. Recentemente um publicitário amigo passou por um mau pedaço, porque o sobrinho do anunciante “era um gênio da música” e quis ajudar na elaboração de um jingle, onde se usava o jazz. Se não fosse a intervenção do meu amigo, quase que o jazz virava o samba do crioulo doido.

O uso dessa ferramenta chamada computador tornou fácil para qualquer um que saiba apertar teclas e descobrir efeitos, adquirir, quase que por magia, sem nenhum esforço, “o dom da genialidade”. São milhares de efeitos bonitinhos, pero ordinários, na mão de quem não sabe usá-los corretamente. É a repetição da famosa cena do Mickey no filme Fantasia, quando ele se embaralha com os baldes. Ora, por traz de todo trabalho de comunicação tem que haver um conceito bem pensado e definido. É aí que entra a experiência e o saber fazer. Não estou defendendo os da minha idade e nem tenho nada contra os sobrinhos dos outros, mas há trabalhos e trabalhos. Há serviços para fuzileiros navais que desembarcam na praia e tomam o terreno e há serviços para escoteiros mirins. Você escolhe com quem quer trabalhar. Vai ser com alguém que pode resolver definitivamente o seu problema ou vai deixar meninos brincarem com o seu tempo, dinheiro e paciência.

Os cursos de comunicação, como todos os outros que proliferaram pelo Brasil nos últimos anos, prometem emprego fácil, altos salários e muito glamour. Despejam no mercado centenas de sobrinhos ávidos por conquistar o seu lugar ao sol. Tudo bem, é a ordem natural das coisas, mas daí a disputar trabalhos sérios, sem antes ter passado por um aprendizado duro e fustigante vai uma enorme diferença. Outro dia, deparei-me com uma moça que havia montado sua própria agência de propaganda sem nunca ter pisado em uma. Ela simplesmente achou que o negócio dava dinheiro, meteu os peitos e até conquistou alguns clientes. Mas que tipo de serviços e resultados em vendas ela poderia oferecer à eles? Já vai longe o tempo em que qualquer filme no ar resolvia as questões mercadológicas.

Em propaganda, quando o resultado final é ruim sempre temos dois culpados:  quem apresentou a ideia e realizou o trabalho e quem aprovou. Mas como quem aprova, atualmente, está no mesmo nível dos que fazem o trabalho – a mediocridade, que quer dizer, nivelar pelo meio, impera. É por isso que se vê tanto trabalho ruim por aí, sobrinhos de todos os lados fazendo lambanças sem antes aprender a trabalhar de fato.

Nada contra a moçada, contra estagiários e recém formados, eles não têm culpa das novas circunstâncias comerciais e das mudanças que o Deus Cronos está nos impondo. O “tudo pra ontem” e “o ganhar dinheiro fácil” parecem ser a regra do jogo. Dar-se ao trabalho de pensar exaustivamente, olhar tudo o que é necessário ver, buscar um conceito bem definido para um produto, marca ou serviço, ir a fundo na análise do comportamento do consumidor e pensar com a cabeça do outro não parece fazer parte do trabalho da turma atual; criar efeitos, sim. Mas veja o tipo de efeitos que a moçada está criando: os da pirotecnia, isto é, muito barulho para nada.