Para muitos de nossos jovens, renda passou a ser mais importante do que emprego ou carreira.

O que ocorria antigamente, de alguns pais incentivarem os filhos a prestar concurso para empresas estatais, nas quais eles se manteriam até a aposentadoria, é algo que está desaparecendo rapidamente. Hoje, os jovens desejam empreender, boa parte deles motivada por casos de enorme sucesso, especialmente no mundo da informática e da Internet.

Recursos para startups têm sido disponibilizados pelo governo e setor privado. Um exemplo é a linha de crédito recentemente aberta pelo BNDES, voltada para empresas nascentes. No entanto, enquanto em outros países a burocracia para tomar recursos é reduzida, aqui ela é excessiva e desanimadora. Também temos os investidores anjos, mas a exigência para acesso a recursos privados tende a ser grande.

Outra realidade a considerar é o fato de ainda haver um ranço, em alguns de nossos meios acadêmicos, que preferem se manter no purismo científico, sem a “contaminação” com o mercado. Tal postura tem levado uma boa parte de nossa produção acadêmica às prateleiras das bibliotecas universitárias e não ao mercado.

A nossa carência de suporte gerencial e de ambientes adequados para o empreendedorismo inovador leva a dificuldades adicionais, como as seguintes: ‒ criar um produto ou serviço sem público (o sucesso vem de encontrar um problema que as pessoas realmente queiram pagar para resolvê-lo); ‒ permitir, ao longo do desenvolvimento, que distrações tirem o foco do mais importante: a satisfação do usuário; ‒ escolher a equipe de trabalho errada (pessoas pouco qualificadas ou desalinhadas com o propósito da empresa nascente); ‒ não estabelecer uma estratégia de monetização desde o começo da empreitada; ‒ não ajustar custos e preços dos produtos ou serviços desenvolvidos à realidade do mercado; ‒ não ter um plano de marketing bem elaborado, focado no público certo e usando os canais mais adequados; ‒ por distração ou falta de agilidade, ser ultrapassado pela concorrência; ‒ lançar muito cedo ou demorar demais para colocar o produto ou serviço no mercado; ‒ não ouvir as demandas e sugestões dos investidores; ‒ não dispor de networking, isto é, de uma rede de contatos e conselheiros para se apoiar.

No Brasil, tem-se verificado uma fuga de capital humano qualificado, também denominada fuga de cérebros ou brain drain. Nos últimos anos, acadêmicos bem qualificados ou indivíduos com elevada aptidão empreendedora têm emigrado para outros países, onde encontram recursos de mais fácil acesso, suporte gerencial e ambiente mais adequado ao empreendedorismo inovador.

A fuga de cérebros, porém, não deve ser vista sempre com rejeição. Ela pode reverter positivamente, pois possibilita que a pessoa capacitada passe a dispor de exposição privilegiada a ideias emergentes no cenário mundial do empreendedorismo inovador. E, em vários casos, brasileiros que emigraram para outros países acabam também realizando novos negócios no Brasil e trazendo para cá novos produtos e serviços, bem como novos caminhos para o nosso desenvolvimento.

É preciso, porém, que passemos a oferecer melhores condições para isso, incluindo as seguintes: ‒ redução da burocracia na atração de recursos; ‒  acesso a suporte gerencial de qualidade; ‒ criação de mais ambientes colaborativos que propiciem o networking entre pessoas com interesse em empreendedorismo inovador; e ‒ maior abertura de toda a academia na oferta de conhecimento científico-tecnológico para os empreendedores, de forma a propiciar aos jovens maior oportunidade para provarem suas capacidades criativas e empreendedoras, gerando progresso.

Artigo publicado no jornal Gazeta do Povo:

www.gazetadopovo.com.br/opiniao/artigos/brasil-um-exportador-de-cerebros/