Empresas apregoam aos seus funcionários que evitem erros com ordens quase sempre ameaçadoras: antes de agir, analisem com extremo critério todas as possibilidades e relacionem cuidadosamente os prós e os contras. Investiguem todas as alternativas sendo reflexivos e ponderados e não se esqueçam de usar nosso caríssimo e complexo software de análise estatística, pois a qualquer deslize o bicho papão da demissão pegará vocês. Ora, ao cercear as possibilidades de erro, a empresa não inovará, nem fará com que suas equipes sejam criativas – a maior exigência do mundo atual – e, criará um bando de carneirinhos adeptos ao Yes, sir! – Funcionários podem ser criativos em casa, na rua, com os amigos e com seus hobbies, mas ao bater o cartão ponto deixam de sê-lo. A ordem não se pode errar é a mesma de não se pode ousar, criar e inovar. Quem não está disposto a arriscar não vai ser criativo e inovador nunca.

Este contexto é contraditório porque ao mesmo tempo em que se prega a necessidade da inovação se solicita o extremo cuidado na tomada de decisões. É por isso que temos tanta gente com muita capacidade para dizer “não” e pouquíssima com capacidade para dizer “sim”. Hoje, as decisões, quando acontecem, são repartidas em comitês porque ninguém tem a coragem de se arriscar. Com isso emperram-se os processos, perdem-se tempo e as oportunidades irão bater na porta da concorrência. Gente criativa não fica em empresa castradora, se ficar será tão infeliz que não vai ajudar em nada.

Dirigentes precisam entender que uma das funções do erro é detonar o início das histórias, que produtos campeões nasceram muitas vezes de erros históricos e que foi preciso errar muitas vezes para se chegar a uma solução satisfatória. Não estou fazendo apologia ao erro e ao descuido, estou dizendo que falhas grosseiras, chulas, advindas da falta de atenção ou do relaxo devem ser punidas. Erros oriundos de iniciativas de se fazer melhor devem ser incentivados.

O filósofo Shopenhauer nos diz que se cometemos um erro e este custou 10 reais e não aprendemos – pagamos caro; mas se cometemos um erro e este custou mil reais e aprendemos – pagamos barato. É preciso entender que não aprendemos com os erros, mas sim com a correção dos erros.

Ao iniciar um novo projeto, não devemos ter medo de errar, aliás, devemos sim, errar bastante e quanto mais cedo errarmos – melhor. Se não deu certo, não tem importância, o aprendizado nos ajudará a recomeçar novos projetos já com a expertise incorporada. Se ao longo de um processo não erramos em nada, com certeza é sinal de que também não inovamos. Processos, sistemas e projetos precisam ser corrigidos sempre. Warren Buffett, um dos homens mais ricos do mundo disse: “Se a cada dez tentativas errarmos quatro, isto não é errar. ”

O receio de se arriscar, hábito que aprisiona e inibe a criatividade, tem a ver com o julgamento e a culpa, frutos de uma busca de perfeição desnecessária, pois nem sempre os trabalhos empresariais precisam de 100% de perfeição. Sendo menos rigorosos com o nosso desempenho, enfrentaremos melhor os desafios e compreendemos que uma bola na trave vale mais do que uma para fora. Bolas na trave indicam que estamos muito perto do ideal e que não podemos nos acomodar. O repartir das tentativas e das correções motiva a todos e os mobiliza na busca do rumo correto. Zonas de conforto induzem ao medo de errar e estas à imobilidade.

Por outro lado, não é bom ficar preso aos erros do passado e em lamentações sem fim. Tal atitude só piora a situação. Um dos truques para se livrar dessa culpa é rememorar o erro (pela última vez) criando uma história fictícia, é claro, mas com final feliz para a situação e repeti-la algumas vezes. O erro e a culpa irão embora da nossa mente e estaremos preparados para cometer novos erros e, com certeza, com a capacidade criativa liberada. Ao se livrar do medo dos erros, um novo e brilhante caminho em nossa carreira será aberto.  Só perde pênalti, quem se arrisca a bater pênalti.