Muito se fala hoje acerca do Watson e do seu papel de substituição do ser humano. Mas afinal, o que é Watson? O que ele pode fazer? Qual a relação dele com o ser humano e com a sociedade?

De acordo com a IBM, Watson é um software, ou seja, um sistema de programação cognitiva que envolve emoções, interpreta textos e imagens, dá respostas, ouve sons, entre outras aplicações, mas não é um robô em si, podendo estar apenas por trás do robô, caso assim seja o desejo do seu criador.[1]

Entretanto, a IBM decidiu implantar o Watson num robô, a fim de demonstrar ao mundo o quão humana poderia parecer a sua criação. Para tanto, em conjunto com a empresa Aldebaran Robotics, criou a fusão entre o Watson e o Nao. O robô, que responde com a fala e também gesticula de acordo com as palavras, tende a aprender, por meio da interação com os humanos, em especial os ânimos e gestos. [2]

A dita fusão foi batizada de Connie e trabalha na recepção do Hotel Hilton McLean, na Virgínia, atendendo hóspedes e passando informações sobre dúvidas referentes às atrações turísticas, restaurantes e outros serviços. [3]

Mas, enfim, o que se destaca em Watson? Por que tanto se fala desse software? Por que é considerado uma grande tendência atualmente?

O grande destaque é que Watson não é uma mera inteligência artificial, mas sim possui uma inteligência cognitiva [4], podendo aprender constantemente. [5]

Para que melhor se compreenda o que Watson é capaz de fazer, é interessante analisar algumas das suas atuações no mercado até o momento.

Um escritório de seguros no Japão, denominado Fukoku Mutual Life Insurance Company, passou a utilizar o software Watson para analisar documentos médicos, bem como determinar pagamentos com base em ferimentos, históricos e procedimentos médicos, além de analisar ligações do seu call center com o principal objetivo de detectar se os seus clientes estão utilizando linguagem positiva e negativa. [6]

A referida empresa japonesa investiu inicialmente 1,7 milhão de dólares para a aquisição do software, bem como prevê uma manutenção anual de 128 mil dólares. Em contrapartida, irá economizar 1,1 milhão de dólares por anos. [7]

Watson também já atuou como membro de uma equipe de diagnóstico nos Estados Unidos, denominada WellPoint, avaliando históricos médicos, mantendo a sua atualização referente às pesquisas científicas e auxiliando os médicos da empresa na identificação de problemas com os seus pacientes. [8]

A aplicação do Watson no mundo jurídico também já é uma realidade, por meio da compreensão do significado de leis e decisões judiciais, classificação das informações mais relevantes, menção de qualquer notícia que possa afetar determinado trabalho dos advogados, além da sugestão de soluções jurídicas. É um verdadeiro assistente do advogado, buscando dados diferenciados para que o profissional possa também qualificar as suas decisões de forma mais rápida. [9]

O primeiro robô advogado foi criado nos Estados Unidos no escritório Baker & Hostetler. É chamado de Ross e servirá como um colega “sabe-tudo” aos mais de 900 advogados da banca. Entretanto, a aplicação da presente tecnologia ainda é muito cara, pois, “de acordo com a IBM, só o hardware do Watson custa US$ 3 milhões.”[10]

A aplicação da dita tecnologia em escritório de advocacia brasileiro também já é um fato, conforme consta no blog do escritório Urbano Vitalino Advogados, localizado no Recife. Tem atuação nacional e internacional. O sistema de inteligência terá uma voz feminina, chamada de Carol e terá como principal objetivo inserir os dados dos processos no sistema interno, auxiliar os advogados na análise de dados do processo, jurisprudência e realização de trabalhos repetitivos e, principalmente, evitar erros humanos. O escritório já informou que não fará nenhum corte de postos de trabalho, mas sim, deve aumentar o número de processos e de clientes, com a mesma equipe atual. [11]

Até mesmo um livro de receitas foi criado por Watson, sendo que todas elas foram testadas pelo Instituto de Educação Culinária de Nova Iorque e são agradáveis aos paladares dos seres humanos. O Watson inventou mais de 30.000 (trinta mil) receitas, analisando os elementos de sabor de cada alimento e ajustando os que contivessem os compostos semelhantes, obtendo sabores bastante ousados. [12]

Watson também já está presente no Banco do Brasil, com o objetivo de responder questões relacionadas ao uso de cartão de crédito, as quais representam 30% dos questionamentos mensais realizados por meio da página do Banco, no Facebook. Possui, ainda, aplicação interna para tirar dúvidas dos seus empregados em relação à renegociação de dívidas. É interessante mencionar que o Watson não sabe todas as respostas. Nesse caso, as perguntas não resolvidas são enviadas para a equipe de empregados responsável pelo treinamento do Watson. [13]

Somente por curiosidade, o Bradesco já utilizava tal tecnologia e foi o primeiro cliente do Watson no Brasil. Aliás, os Bancos foram os pioneiros na utilização dessa tecnologia no mundo. [14]

Watson também auxilia na luta contra o câncer, a partir da análise célere do DNA e da determinação de tratamentos personalizados para pacientes[15].

Entretanto, Watson não pretende ficar apenas no planeta Terra e já possui uma missão espacial agendada, para ajudar astronautas na Estação Espacial. Ele terá como principais atividades auxiliar a equipe em experimentos médicos e estudos de cristais, bem como ser amigo dos astronautas, inclusive com a possibilidade de criação de diálogo e o estabelecimento de relacionamento profissional. [16]

Apesar das inúmeras atividades que o Watson é capaz de realizar, é importante destacar que ele não veio para substituir o advogado e nenhum outro profissional e, nem poderia, pois o poder de criação, intuição e análise do ser humano é infinito, portanto, somente será substituído o profissional que trabalha de forma robotizada:

Robôs podem até decifrar interesses mediante referências comportamentais, por estatísticas e algoritmos cuja base de dados, entretanto, por maior que seja, é sempre finita e, por isso, não considera todas as variáveis – que são infinitas. Por exemplo, a tecnologia cognitiva alcança os dados e os interesses não aparentes, ou mesmo dissimulados, muitas vezes, determinantes para a melhor decisão ou para o melhor acordo? Acompanha as vicissitudes desses interesses, tão dinâmicos quanto o estado de espírito das pessoas? 

A inteligência artificial será algum dia autossuficiente para atender a interesses que a ciência não pode prever nem padronizar? Os robôs serão dotados de atributos da inteligência humana cuja origem ainda nem se conhece bem, como a intuição? Algoritmos não reproduzem os sentimentos espontâneos do ser humano, inerentes a uma base infinita de dados, ainda bastante desconhecida, que se chama cérebro.   

O Ross e todos os demais programas que estão chegando às bancas jurídicas não serão uma ameaça, serão um baita auxílio aos advogados que, na essência da profissão, efetivamente advogam. Ameaçados estarão – ou já estão – os profissionais que se reduzem ao “recorta e cola” de uma rápida pesquisa em qualquer programa de computador, com a única preocupação de atualizá-lo às suas novas versões. [17]

Mas afinal, o objetivo do Watson, em algum momento, foi realmente substituir os seres humanos?

Em análise bastante interessante realizada por Gentile, uma pista para entender o real objetivo do Watson seria analisar o próprio significado do seu nome, o qual remete ao assistente do Sherlock Holmes, portanto, o seu principal objetivo seria auxiliar, mas jamais substituir:

Uma boa pista para compreender o convívio pacífico entre a inteligência artificial do Ross e a inteligência humana de um advogado está no nome dado a essa tecnologia cognitiva: “Watson”. Na obra do escritor Arthur Conan Doyle, o assistente de Sherlock Holmes é o Dr. Watson, responsável pelo registro da maioria dos casos desvendados pelo famoso detetive do século XIX.

Sherlock Holmes tornou-se o personagem mais emblemático da ficção policial pela sua sagacidade, sua extrema aptidão de interpretar os fatos por meio de raciocínios dedutivos que o levavam a enxergar além das aparências. A bem dizer, os atributos da autêntica advocacia são muito parecidos. [18]

É fato que o futuro envolto em toda esta tecnologia dá arrepios, mas ao mesmo tempo desafia o ser humano a ser cada vez melhor, a não atuar de forma robotizada “diante de um admirável mundo novo, o mais rápido e emocionante período na história da humanidade” [19], sendo que “as mudanças que vivenciaremos serão maiores e ocorrerão em um ritmo mais veloz do que em qualquer geração anterior, e essas transformações, impulsionadas em parte por dispositivos que teremos em nossas próprias mãos, serão mais pessoais e participativas do que podemos imaginar”. [20]

Estamos num momento importante, num período de escolhas entre viver o inevitável avanço da tecnologia sem nenhuma preparação, vivendo todos os problemas e soluções que dela decorrerão sem nenhum papel ativo, ou, “podemos escolher melhorar nossa capacidade de antecipar esses saltos inevitáveis. Podemos escolher aprender e educar nossos filhos para trabalharem com sabedoria e lerem com inteligência os frutos desses avanços. E podemos escolher modificar nossos pressupostos jurídicos, políticos e econômicos para enfrentar as trajetórias predestinadas que encontraremos no futuro. O que não podemos fazer, entretanto, é fugir delas”. [21]

Para encarar essa realidade, temos que, principalmente, focar na capacitação de toda a sociedade, sob pena de se criar infomarginalizados, ou seja, indivíduos que não possuem conhecimento e nem contato com a tecnologia. Essa preocupação há tempos já é expressada por Delgue:

Por lo que es indispensable que el Estado provea a todos sus habitantes la instrucción necessária para poder utilizar las nuevas tecnologias de la información. El desconocimiento de ellas es comparable a las situaciones de analfabestimo del siglo XX y afecta em medida importante las possibilidades de acceso al mercado de trabajo. [22]

É preciso apostar na inovação, a qual será essencial em função da inevitável reestruturação das instituições e sistemas, os quais deverão se adequar a nova era tecnológica em paralelo ao desenvolvimento sustentável:

Se há um ponto positivo na destruição de instituições e sistemas causada por agitações sociais ou políticas, é o fato de abrir caminho para o surgimento de novas ideias. A inovação está em toda a parte, mesmo no intrincado e difícil trabalho de reconstrução, e será ampliada por redes rápidas, boa liderança e oferta abundante de dispositivos, isto é, tablets e smartphones. [23]

Há que se buscar, impetuosamente, a ruptura do mecanicismo e o avanço do holismo, priorizando “o pensamento sistêmico, em que o desenvolvimento econômico, social, ambiental e tecnológico não possuem sentido se direcionados de forma separada, mas provocam uma profunda revolução se entendidos como um conjunto direcionados para uma única meta”.  [24]

Não pretendo aqui responder definitivamente a todas as perguntas constantes do início do texto, mesmo porque não sabemos o quanto a evolução da tecnologia ainda nos surpreenderá, mas entendo que, para a sustentabilidade do desenvolvimento, da sociedade e do sistema no qual, atualmente, vivemos, Watson deve ser encarado apenas como um assistente, auxiliando os seres humanos e melhorando as nossas vidas numa relação saudável e pacífica.

“Elementar, meu caro Watson!

Referências Bibliográficas

[1] D’Egmont, Tahiana. O que é Watson? Plataforma cognitiva? Inteligência artificial? Um robô? Extraído do site: https://www.ibm.com/blogs/digital-transformation/br-pt/o-que-e-watson-plataforma-cognitiva-inteligencia-artificial-robo/. Matéria publicada em 16/12/2016. Acesso em 02/06/2018.
[2] HERNANDEZ, Alvaro. Watson é agora um robô: assim é o primeiro corpo do supercomputador mais famoso do mundo. Extraído do site: http://br.blogthinkbig.com/2016/06/27/watson-e-agora-um-robo-assim-e-o-primeiro-corpo-do-supercomputador-mais-famoso-do-mundo/. Matéria publicada em 27/06/2016. Acesso em 02/06/2018.
[3] Ibidem.
[4] “Qual a diferença entre sistemas cognitivos e inteligência artificial? A meta da inteligência artificial é criar sistemas autônomos, inteligentes. Já a da computação cognitiva é criar sistemas auxiliares que ampliem as nossas cognições.” JANSEN, Thiago. “É a revolução da tecnologia cognitiva” afirma o criador do supercomputador Waton. Extraído do site: https://oglobo.globo.com/sociedade/tecnologia/e-revolucao-da-tecnologia-cognitiva-afirma-criador-do-supercomputador-watson-14222441#ixzz5HVZULcGi. Matéria publicada em 12/04/2014. Acesso em 04/06/2018.
[5]. D’Egmont, Tahiana. O que é Watson? Plataforma cognitiva? Inteligência artificial? Um robô? Extraído do site: https://www.ibm.com/blogs/digital-transformation/br-pt/o-que-e-watson-plataforma-cognitiva-inteligencia-artificial-robo/. Matéria publicada em 16/12/2016. Acesso em 02/06/2018.
[6] AGRELA, Lucas. Robô da IBM substitui 34 funcionários de empresa no Japão: Funcionário digital vai executar tarefas repetitivas e poupar dinheiro para seguradora. Extraído do site: https://exame.abril.com.br/tecnologia/robo-da-ibm-substitui-34-funcionarios-de-empresa-no-japao/. Matéria publicada em 04/01/2017. Acesso em 02/06/2018
[7] Ibidem.
[8] MORENO, João Brunelli. Supercomputador Watson da IBM começa a trabalhar em hospital. Extraído do site: https://tecnoblog.net/76881/watson-ibm-hospital/. Matéria publicada há 7 anos. Acesso em 02/06/2018.
[9] GENTILE, Fabio da Rocha. Advocacia artificial, meu caro Watson? Análise da inserção da inteligência artificial no universo da advocacia. Extraído do site: https://www.jota.info/opiniao-e-analise/artigos/advocacia-artificial-meu-caro-watson-01042017. Matéria publicada em 01/04/2017. Acesso em 02/06/2018.
[10] MELO, João Ozorio de. Escritório de advocacia estreia primeiro “robô advogado” nos EUA. Extraído do site: https://www.conjur.com.br/2016-mai-16/escritorio-advocacia-estreia-primeiro-robo-advogado-eua. Matéria publicada em 16/05/2016. Acesso em 03/06/2016.
[11] MULLER, Leonardo. “Advogada robô” facilita trabalho de humanos em escritório brasileiro. Extraído do site: https://www.tecmundo.com.br/software/125166-advogada-robo-facilita-trabalho-humanos-escritorio-brasileiro.htm. Matéria publicada em 12/12/2017. Acesso em 03/06/2016.
[12] CAMPI, Eric. Conheça Watson, o robô chef de cozinha. Extraído do site: https://www.vix.com/pt/bbr/tecnologia/2972/conheca-watson-o-robo-chef-de-cozinha. Não há data da publicação da matéria. Acesso em 02/06/2018.
[13] MERKER, Julia. Banco do Brasil terá chatbot com Watson. Extraído do site: https://www.baguete.com.br/noticias/01/08/2017/banco-do-brasil-tera-chatbot-com-watson. Matéria publicada em 01/08/2017. Acesso em 03/06/2018.
[14] Ibidem.
[15] Supercomputador Watson da IBM se soma a 14 centros na luta contra o câncer. Extraído do site: https://economia.uol.com.br/noticias/afp/2015/05/05/supercomputador-watson-da-ibm-se-soma-a-14-centros-na-luta-contra-o-cancer.htm. Matéria publicada em 05/05/2015. Acesso em 04/06/2018.
[16] AUTRAN, Felipe. Robô com IA Watson da IBM vai ajudar astronautas na Estação Espacial. Extraído do site: https://www.tecmundo.com.br/ciencia/127680-robo-ia-watson-ibm-ajudar-astronautas-estacao-espacial.htm. Matéria publicada em 28/02/2018. Acesso em 02/06/2018.
[17] GENTILE, Fabio da Rocha. Advocacia artificial, meu caro Watson? Análise da inserção da inteligência artificial no universo da advocacia. Extraído do site: https://www.jota.info/opiniao-e-analise/artigos/advocacia-artificial-meu-caro-watson-01042017. Matéria publicada em 01/04/2017. Acesso em 02/06/2018.
[18] Ibidem.
[19] SCHMIDT, Eric. A nova era digital: como será o futuro das pessoas, das nações e dos negócios. /Eric Schmidt, Jared Cohen; tradução Ana Beatriz Rodrigues, Rogério Durst. – 1ª. ed. – Rio de Janeiro: Intrínseca, 2013. p. 261.
[20] Ibidem.
[21] KEVIN, Kelly. Para onde nos leva a tecnologia. Tradução: Francisco Araújo da Costa. Porto Alegre: Bookman, 2012, p. 167.
[22] DELGUE, Juan Raso. Los cyber-derechos en el ámbito laboral uruguayo. In: Revista de derecho social latinoamerica. Albacete: Bomarzo, n. 1. p. 204, jan./mar. 2006.
[23] SCHMIDT, Eric. A nova era digital: como será o futuro das pessoas, das nações e dos negócios. /Eric Schmidt, Jared Cohen; tradução Ana Beatriz Rodrigues, Rogério Durst. – 1ª. ed. – Rio de Janeiro: Intrínseca, 2013. p. 247/248.
[24] DINIZ, Patrícia Dittrich Ferreira. Trabalhador versus automação: impactos da inserção da tecnologia no meio ambiente do trabalho à luz do tecnodireito e da tecnoética. Curitiba: Juruá, 2015, p. 203.