Acompanho de perto a evolução da Inteligência Artificial (IA), mas a coletânea de tantas aplicações publicadas no artigo “59 impressive things artificial intelligence can do today” me deixou realmente impressionado. A lista é bem ampla e apresenta exemplos de IA em funções como reconhecer objetos em vídeos e fotos, reconhecer emoções em um rosto humano, traduzir diferentes línguas, dirigir um veículo, pilotar um drone, detectar sinais de câncer nos pulmões com mais eficiência que um médico, detectar sinais de pragas nas colheitas, detectar malwares em computadores e inúmeras outras aplicações. Vale a pena explorar os diversos sistemas de IA descritos no artigo em setores tão díspares como finanças, jurídico, agricultura, programação de computadores, meteorologia, etc.

Para mim está claro que estamos diante de um ponto pivotal na sociedade. A revolução digital está nos proporcionando uma avalanche de mudanças tecnológicas que têm o potencial de redesenhar a própria essência da sociedade e claro, as empresas, seus modelos de negócio e as profissões. O desafio é muito grande e temos que entender a dinâmica destas transformações para não sermos levados por ela, mas sim, conduzi-las.

O impacto da IA não pode e nem deve ser subestimado. Recomendo um livro instigante, chamado “Technology vs. Humanity: The Coming Clash Between Man and Machine” do futurista (e que se diz “agorista”, devido à velocidade das mudanças) Gerd Leonhard. Também sugiro uma olhada nos seus curtos, mas instigantes vídeos.

Nós já observamos no dia a dia essas mudanças. Elas já estão ocorrendo em novos modelos de negócio nas empresas que não existiriam se a tecnologia digital não evoluísse tão significativamente. Está presente no Airbnb, empresa de tecnologia que aluga hospedagem sem ter um único quarto de hotel, entre tantas outras como Uber, Google, Facebook, Amazon, WhatsApp e Instagram.

O que já vemos nos mostra que provavelmente a humanidade mudará tanto nos próximos 20-30 anos como nos 300 anos anteriores. Vocês conseguem imaginar o mundo em 1718? Alguém naquela época conseguiria imaginar um automóvel? E ainda por cima sem motorista? A Internet? Um smartphone? Qualquer menção a essas “bruxarias” seria alvo de inquisição. Sim, em abril de 1718 ainda ocorriam casos de inquisição no Rio de Janeiro!

Hoje a velocidade exponencial das mudanças nos permite até pensar em substituir o termo ficção científica por “antecipação científica” ou até mesmo por “fatos científicos”. Nosso arraigado hábito de extrapolar o futuro baseado no presente ou no passado recente, no pressuposto que o que vem funcionando bem até agora, com algumas melhorias e ajustes, continuará funcionando no futuro, dificilmente será mantido. Temos pela frente uma nova realidade, provocada pelo impacto de mudanças exponenciais e combinatórias das tecnologias digitais. O futuro não será extensão do passado. É aqui que identificamos o ponto de inflexão, em que as curvas de evolução exponencial de muitos campos da ciência e tecnologia provocarão disrupções na sociedade. O potencial disruptivo da evolução exponencial e combinatória é dramático: pensem o que será combinar machine learningdeep learning e IoT (Internet das Coisas, do inglês Internet of Things), por exemplo.

A evolução exponencial é de difícil percepção, tanto no início, quando se parece muito com a evolução linear e passa despercebida, quanto depois, quando cresce vertiginosamente. No início, mesmo dobrando em períodos de tempo curtos, como poucos meses, não sentimos seu efeito, quando uma tecnologia é utilizada por apenas 0,1% das pessoas, depois 0,2%, 0,4%… Mas ao chegar a 16%, no próximo ciclo estará a 32%, no terceiro 64% e no quarto praticamente já estará totalmente disseminada.

Em uma era de exponencialidades não é mais possível mantermos nosso pensamento e nossa estratégia de negócios baseados na linearidade. Mantê-los na linha linear vai nos levar a fracassos, simplesmente, por não conseguirmos visualizar as mudanças em tempo hábil.

A IA tem um papel primordial. Diante dessas mudanças existem visões pessimistas e otimistas. O instigante e polêmico livro “Superintelligence: paths, dangers, strategies”, de Nick Bostrom, diretor do Future of Humanity Institute, da Universidade de Oxford, no Reino Unido, mostra uma visão alarmista.  Surpreendentemente, o livro, apesar do tema aparentemente inóspito, foi um dos best-sellers do New York Times.

Ele debate a possibilidade real do advento de máquinas com superinteligência e os benefícios e riscos associados à sua chegada. O autor pondera que os cientistas consideram que houve cinco eventos de extinções em massa na história de nosso planeta, quando um grande número de espécimes desapareceu. O fim dos dinossauros, por exemplo, foi um deles. Hoje estaríamos vivendo uma sexta onda de extinções, esta causada pela atividade humana. Ele pergunta: “E será que nós não estaremos nessa lista?”.  Claro, existem razões exógenas como a chegada de um meteoro, mas ele concentra-se em uma possibilidade que parece saída de filme de ficção científica como o “Exterminador do Futuro”. O livro, certamente, desperta polêmica e parece meio alarmista, mas suas suposições podem sim, tornar-se realidade. Alguns cientistas posicionam-se a favor desse alerta, como o físico Stephen Hawking que disse textualmente: “The development of full artificial intelligence could spell the end of the human race”. Também Elon Musk, que é o fundador e CEO da Tesla Motors, tuitou recentemente: “Worth reading Superintelligence by Bostrom. We need to be super careful with AI. Potentially more dangerous than nukes”.

Mas, pelo lado positivo, Bostrom aponta que a criação dessas máquinas pode acelerar exponencialmente o processo de descobertas científicas, abrindo novas possibilidades para a vida humana. Uma questão em aberto é quando tal capacidade de inteligência seria possível. Uma pesquisa feita com pesquisadores de IA aponta que uma máquina superinteligente – Human Level Machine Intelligence(HLMI) – tem 10% de chance de aparecer por volta de 2020 e 50% em torno de 2050. Para 2100, a probabilidade é de 90%! Sabemos hoje que uma pessoa com QI 130 consegue ser muito melhor no aprendizado escolar que uma com QI 90. Mas se a máquina chegar a um QI de 7.500? Ou 25.000? Não temos a mínima ideia do que poderia ser gerado por tal capacidade. Vale a pena aprofundar o assunto.

Sugiro ler um estudo chamado “Concrete Problems in AI Safety” e para quem quiser se aprofundar no tema sugiro acessar “Benefits & risks of Artificial Intelligence”, que contém links para dezenas de vídeos, artigos e estudos sobre o assunto.

Indiscutível que a IA vai afetar a sociedade e o emprego como conhecemos. A automação, em seu início, afetou as linhas de produção nas fábricas. Agora o risco de desemprego afeta funções que antes eram reservadas aos humanos. Por exemplo, motorista de caminhão. É um dos trabalhos mais comuns no mundo todo. São 3,5 milhões deles nos Estados Unidos e aqui no Brasil temos mais de um milhão registrados no transporte de carga. O governo holandês já realizou um teste bem-sucedido de caminhões sem motorista cruzando a Europa. O Uber pagou US$ 680 milhões para comprar Otto, uma startup que desenvolve tecnologia para caminhões autônomos e que foi fundada por especialistas de IA do Google. A consultoria McKinsey previu que dentro de oito anos, um terço de todos os caminhões na estrada serão autônomos, rodando sem motoristas. Em talvez 15 anos, o motorista de caminhão, como o ascensorista, será um anacronismo. O Uber investiu no Otto não apenas para operar caminhões, mas porque quer operar frotas de carros autônomos e em setembro de 2016 começou a testar essa frota em Pittsburgh. O serviço postal do Canadá quer enviar aviões não tripulados, em vez de vans, para entregar correio rural.

Os avanços na inteligência artificial e robótica estão impulsionando uma nova era de automatização inteligente, que será um importante motor de disrupção empresarial e social nos próximos anos. Os investimentos das principais empresas de tecnologia em IA são muito elevados. É uma disputa acirrada para se posicionarem no futuro da computação. A IA afetará as empresas, empregos, sociedade e a economia. Obrigará a revisão da atual formação educacional e demandará fortes ações por parte de governos e das empresas. É essencial que as corporações de todos os setores de negócio compreendam seu impacto potencial ou ficarão para trás. IA não é coisa de nerd ou de cientistas, mas deve estar nas reuniões do board e do CEO.