Ser generalista é uma habilidade do ser humano que possui a capacidade de enxergar as múltiplas dimensões dentro de um processo analítico criativo e de resolução de problemas. Na presente fase da evolução histórica, quando possuímos pilhas de especialistas em temas inimagináveis, os generalistas voltam a ser requisitados, com maior ênfase, porque os problemas a serem resolvidos ou as soluções a serem criadas para a sociedade incluem um número cada vez maior de dimensões que merecem ser consideradas.

Paralelamente, a tecnologia cria ambientes para apoiar esta capacidade do ser humano de forma artificial, provendo ferramentas para associar dimensões. Os exemplos estão se multiplicando, com sistemas como o BIM – Building Information Modelling – que disponibiliza a anatomia dos edifícios em três dimensões e permite projetar organizando e sobrepondo as esferas dos componentes construtivos, para sua compatibilização.

Desta forma, a tecnologia aporta grandes mudanças em todas as áreas do conhecimento, favorecendo nossa forma de criar e de comunicar. E isto vem ocorrendo desde os tempos imemoriais, partindo do barro, pele animal, madeira, papel, até atingir partículas imateriais como os pixels, elétrons e fótons.

No entanto, a tecnologia não pode prescindir da mente humana, que armazena conceitos e análises e a capacidade de associar e recriar os temas já existentes com novos paradigmas. Mentes como a de Michelangelo, que integrava os diversos aspectos da realidade ou da imaginação para criar obras não só belas como geniais, demonstram para nós que os mestres do passado já eram capazes de considerar, em seu processo criativo, mais do que as duas dimensões oferecidas pelo papel ou as três dimensões oferecidas pela escultura: incluíam em suas obras o movimento e, além disso, o tempo, transmitindo a quarta dimensão. Essa habilidade de aliar diversas dimensões em um produto, é uma característica de mentes generalistas.

No rastro desses grandes mestres, a tecnologia vem apoiar o desenvolvimento de análises e soluções que atinjam ou mesmo ultrapassem a quarta dimensão, que até pouquíssimo tempo atrás, nem integrava a pauta da evolução tecnológica. E faz isso em computadores com capacidade quântica, pois o sistema binário atual não é mais suficiente.

É nesse contexto que se situam os desafios da gestão tecnológica das cidades, principalmente das grandes. Elas são um palimpsesto que se reescreve a cada dia, gerando dados materiais e imateriais dinâmicos, cuja apreensão e análise são a essência das cidades inteligentes.

A forma com que se planeja, estuda e se administra uma cidade evoluiu ao longo do tempo. Saímos do apoio de “sistemas mecanizados”, baseados em organizações padronizadas, para sistemas “automatizados” com um determinado nível de flexibilidade para análises e decisões. No próximo ciclo evolutivo atingem-se os sistemas inteligentes.

Os estímulos básicos para a inteligência de uma cidade são dados sobre “tudo que acontece na mesma”, ou seja, tudo que compõe a Big Data urbana, a grande massa de dados que são adquiridos a todo momento advindos das diversas fontes existentes que são os sentidos do organismo urbano.

Muito se tem investido na parafernália tecnológica de sensores, medidores, câmeras, drones, que são esses sentidos. A maioria dos dados obtidos é simplesmente descartada. A eles acrescentem-se a IOT (Internet Of Things), que pode ser interpretada como uma forma de sistema nervoso, e a possibilidade do processamento quântico, a mente do organismo, o cérebro que é capaz de processar tudo que lhe é informado e dentro de certas limitações, dar uma resposta ou reação.

Ainda assim, e mesmo em organismos vivos, possuir um cérebro não é garantia de ser “inteligente”. É preciso agregar a capacidade analítica e de criação de novos paradigmas. A inteligência artificial vem suprir algumas dessas lacunas, com a capacidade de tomar decisões inteligentes, com base no que se sente, a partir de análises de grande complexidade. Não vai apenas responder a estímulos, mas responder a eles da maneira mais apropriada, baseada em conceitos e definições pré-estabelecidos pelos seres humanos.

Nesta trajetória, em março de 2018 foi anunciado pelo Google o desenvolvimento de um processador quântico de 72qubits que representará o início da “supremacia quântica”, termo que se refere ao ponto em que os computadores quânticos serão capazes de fornecer insumos para resolver problemas muito mais complexos que toda a computação atual é capaz de manusear e cruzar. Alie-se a esse fato a grande expectativa gerada pela rede 5G, que vem avançar nos sistemas de comunicação. Nesta conjugação tecnológica estamos falando apenas da parte que supre nossos sistemas inteligentes com um “cérebro” mais poderoso.

O desenvolvimento de inteligências artificias baseadas em processamento quântico ainda está engatinhando, mas estará correndo em pouco tempo, assim que estes processadores quânticos e os respectivos sistemas operacionais estiverem disponíveis para o mercado. O salto nas possibilidades de utilização de inteligência artificial deverá representar uma nova revolução na indústria de TI, desta vez, uma revolução mais inteligente. E assim os dados de nossas cidades e modelos de análise deverão acompanhar essa revolução.

O nível de inteligência que está se instaurando em sistemas artificiais, permitirá que eles possuam algumas habilidades intrínsecas a um generalista, como a capacidade de juntar os mais complexos níveis e dimensões da realidade urbana, inclusive absorvendo a quarta dimensão, indo além no tempo e adentrando múltiplos níveis analíticos de complexidade nunca dantes pensados. São sistemas capazes de abrigar e manusear Big Data para abastecer as mentes tecnológicas inteligentes, que em breve chegarão a um ponto onde a computação e a inteligência quânticas poderão integrar tudo. Com a inteligência artificial quântica será possível criar em tempo real soluções pré-formatadas para nossas cidades, considerando diversas dimensões.

Tudo bem, a tecnologia é brilhante. Mas está longe de igualar-se à mente de Michelangelo ao criar a beleza que sensibiliza, que evoca a supremacia dos sentimentos humanos. Está longe de apoiar a criação de cidades mais humanas e dignas de se viver, cidades belas onde exista a prevalência dos direitos humanos. Porque esta distância? Porque nos sistemas inteligentes atuais os elementos determinantes que qualificam a inteligência urbana e a vida nas cidades estão ausentes. Trata-se da melhoria de questões como a vulnerabilidade social, segurança, educação, saúde da população, desemprego, qualidade ambiental e cultura.  Essas questões ainda não integram o imaginário das Smart Cities que restringem seu foco a alguns aspectos temáticos urbanos de forma desarticulada dos demais.

A integração das dimensões do ambiente urbano é necessária para formar a inteligência qualificada, que pode redirecionar a evolução das cidades baseada no apoio tecnológico. E é onde a mente humana entra com todo o seu poder criativo e inovador, estabelecendo as condicionantes subjacentes à tecnologia e redirecionando sua inteligência para o que realmente importa na evolução das cidades: a felicidade do bem viver com respeito aos direitos humanos. São variáveis que devem integrar a quinta dimensão das cidades inteligentes e que são as condicionantes das demais.